Se a própria noção de África e de uma história africana só surge no bojo do pensamento europeu dos séculos XVIII e XIX e é radicalmente dependente de uma concepção binária e linear de tempo e de espaço, a evocação dos trânsitos e itinerâncias como categorias teóricas centrais não deixa de ser uma provocação à própria substância da ideia de uma história africana. Talvez seja esse o horizonte de uma historiografia sobre a África epistemologicamente comprometida com o questionamento de um paradigma eurocêntrico de análise: quebrar o espelho da África no qual a Europa projetava a si mesma, e discutir não a história da África, mas das formas como a modernidade se fez construir por meio de deslocamentos entre diferentes territórios desigualmente sobrepostos, no âmbito de histórias entrelaçadas por relações de poder e dominação.